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O jovem não está perdido! O sistema é que ainda não foi redesenhado!

  • Foto do escritor: Kiko Campos
    Kiko Campos
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Toda geração é julgada pelo mesmo erro histórico: confundir comportamento adaptativo com falta de ambição.


Com os jovens de hoje, isso acontece de novo.


O discurso dominante diz que eles são ansiosos demais, impacientes demais, frágeis demais. Mas quando olhamos os dados com atenção — e sem preconceito — a história é outra.


O que vemos não é uma geração perdida. É uma geração tentando atravessar um sistema que não foi desenhado para ela.


E o estágio é o melhor lugar para observar essa fricção.


O funil invisível que trava o futuro


O Brasil tem mais de 20 milhões de estudantes aptos ao estágio, mas apenas cerca de 1,1 milhão de estagiários ativos. Isso significa uma taxa de penetração de aproximadamente 5,5%.


Não é um detalhe técnico. É um gargalo estrutural.


Na prática, estamos dizendo para milhões de jovens:

“Estude, se forme, se esforce… mas só uma fração terá acesso à experiência prática que o mercado exige.”

Esse dado aparece de forma clara no estudo O Cenário do Estágio no Brasil: Educação, Tendências e Oportunidades, que mostra o abismo entre formação acadêmica e inserção profissional .


E aqui surge a primeira provocação incômoda:


Se a experiência é pré-requisito, mas o acesso à experiência é escasso, o problema não está no jovem. Está no sistema.


Quem é, de fato, o estagiário brasileiro hoje?


O retrato real do estagiário brasileiro desmonta vários estereótipos.

Segundo a pesquisa O Perfil do Estagiário no Brasil 2024, da Companhia de Estágios, baseada em mais de 6.200 respondentes, o estagiário típico é:

  • majoritariamente mulher (cerca de 66%)

  • jovem: 64% têm entre 18 e 24 anos

  • estudante de instituição privada (69%)

  • concentrado no Sudeste (70%)


Mas o dado que mais chama atenção não é demográfico. É econômico e social.


Mais de 36% dos estagiários são os principais responsáveis pelo pagamento da própria educação. E 43% ganham até R$ 1.412 por mês.

Ou seja: o estágio não é “test drive de carreira”. É sustentação de vida real.

Em muitas famílias, a bolsa-auxílio representa até 50% de incremento na renda familiar, segundo o estudo .


Quando ignoramos isso, desenhamos programas de estágio desconectados da realidade.


O jovem não busca dinheiro. Busca aprendizado — mas não a qualquer custo.


Outro mito comum: “Essa geração só quer dinheiro”.


Os dados mostram exatamente o contrário.


Quando perguntados sobre o principal motivo para buscar um estágio, apenas 36% citam fatores financeiros. A maioria aponta:

  • adquirir experiência profissional

  • aprender sobre a área

  • aumentar a empregabilidade futura


Aprendizado virou prioridade — e isso não é idealismo. É lucidez.


O jovem entendeu algo que muitas empresas ainda não: sem aprendizado real, o estágio vira tempo morto.


E aqui surge um paradoxo importante:

  • 80% dos estagiários se dizem satisfeitos ou muito satisfeitos

  • mas benefícios ligados a desenvolvimento (treinamentos, mentoria, trilhas) ainda estão entre os menos oferecidos


Há uma desconexão clara entre o que o jovem valoriza e o que o sistema entrega.


A ansiedade não é fragilidade. É resposta adaptativa.


Sim, a ansiedade aparece. E aparece com força.


Cerca de um em cada dez estagiários relata já ter enfrentado problemas de saúde mental relacionados ao estágio. Entre eles:

  • 35% precisaram se afastar

  • 56% pediram demissão

  • 80% não receberam nenhum tipo de apoio da empresa


Esses números são alarmantes — e estão detalhados no relatório da Companhia de Estágios .


Mas o erro está na interpretação.


A ansiedade não nasce do “mimimi”. Ela nasce de três fatores combinados:

  1. Alta pressão por performance precoce

  2. Baixa margem para erro

  3. Pouca estrutura de acolhimento e aprendizagem


O estágio virou, em muitos contextos, uma miniatura tóxica do mundo adulto.


Sem mentor. Sem contexto. Sem espaço para aprender errando.


O estágio como política pública silenciosa


Existe um aspecto pouco discutido: o estágio é uma das maiores alavancas de inclusão social do país.


O estudo mostra que o acesso ao estágio:

  • reduz evasão escolar

  • aumenta renda familiar

  • melhora autoestima

  • amplia perspectiva de futuro


Não por acaso, jovens que estagiam têm níveis muito mais altos de confiança em relação ao mercado de trabalho.


Por outro lado, quando o estágio não acontece, o risco é conhecido: o jovem cai no grupo “nem-nem” — nem estuda, nem trabalha.


Hoje, 19,8% dos jovens entre 15 e 29 anos estão nessa condição, com impacto maior sobre mulheres.


Não é um problema geracional. É um problema de arquitetura social.


A ilusão da empregabilidade técnica


Outro dado revelador: quando jovens dizem o que aumentaria sua confiança profissional, as respostas se concentram em:

  • dominar tecnologias (68%)

  • desenvolver soft skills (42%)

  • melhorar idiomas (36%)


Isso revela algo importante:

O jovem internalizou a narrativa de que precisa se consertar o tempo todo.


Mas o mercado não sofre apenas de falta de qualificação. Ele sofre de falta de bons sistemas de desenvolvimento.


Não adianta exigir prontidão se o desenho da experiência continua pobre.


O estágio como ensaio do futuro do trabalho


Há uma mudança silenciosa acontecendo.


O crescimento dos cursos tecnológicos (+756% desde 2005) e do ensino a distância mostra que o jovem está buscando formações mais rápidas, práticas e conectadas ao mercado .


Ao mesmo tempo, a automação e a IA estão deslocando tarefas operacionais.


Isso muda radicalmente o papel do estagiário.


O estágio deixa de ser operacional e passa a ser intelectual, analítico e relacional.


Mas muitas empresas ainda operam com o modelo antigo:

“Estagiário é apoio administrativo.”

Esse desalinhamento gera frustração dos dois lados.


O que líderes e RHs precisam redesenhar — agora


Se o estágio é porta de entrada, ele precisa ser tratado como sistema estratégico, não como programa periférico.


Alguns princípios são inegociáveis:

1. Aprendizado explícito Estágio sem trilha de desenvolvimento é exploração disfarçada.

2. Liderança presente Estagiário sem mentor aprende menos e adoece mais.

3. Segurança psicológica Erro precisa ser parte do contrato invisível.

4. Critérios claros de efetivação Nada gera mais ansiedade do que um jogo sem regras.

5. Saúde mental como estrutura, não benefício Apoio psicológico não pode ser exceção.


Talvez o maior erro seja chamar isso de “geração problema”


Os dados mostram jovens:

  • realistas

  • engajados

  • conscientes das regras do jogo

  • dispostos a aprender


O que falta não é atitude. É coerência sistêmica.


O estágio continua sendo a ferramenta mais eficiente de seleção, retenção e formação cultural — com taxas de efetivação entre 40% e 60%.


Ignorar isso é desperdiçar capital humano em escala nacional.


Uma pergunta final (que fica ecoando)


Se o estágio é tão decisivo para o futuro do jovem e tão estratégico para o futuro das empresas, por que ainda tratamos essa experiência como algo provisório, barato e improvisado?


Talvez porque redesenhar sistemas dê mais trabalho do que culpar gerações.


Mas os dados são claros.


O jovem está pronto para o futuro. Agora falta o futuro estar pronto para ele.


 
 
 

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kiko@kikocampos.com

Sobre Nós

Kiko Campos é executivo global de Recursos Humanos, especialista em cultura, liderança e transformação organizacional. Atuou como diretor em empresas como Vale, Carrefour e Grupo BIG, liderando projetos de mudança em larga escala, em ambientes complexos e multiculturais.

 

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